Eu sou intolerante. E não escondo isso de ninguém. Acho que sou assim desde pequeno, sempre tive todos os indícios. Mas só assumi lá pelos meus 25 anos. Não precisa ficar preocupado: estou falando da intolerância à lactose, aquela dificuldade chata em consumir leite e derivados.
Descobri isso já adulto. Tinha dores de estômago, tomava leite para melhorar, e só piorava. E ainda vinham outras coisas, meio desagradáveis de contar aqui. Até que um dia, ao fazer uma reportagem sobre a intolerância, me deparei com uma médica que descreveu, na minha frente, todos os sintomas que eu sentia.
Parei de tomar leite, e minha vida mudou. Por isso, digo com orgulho: sou 100% intolerante. Eu e uma amiga, que também é, até pensamos em fazer camisetas com esta frase, só pra ver a cara de assustado do povo. Cara que deve se assemelhar com a que sempre me deparo em restaurantes, quando pergunto se há leite ou derivado na comida.
Parece simples saber se uma receita leva os ingredientes, mas, acredite, é uma tarefa árdua. Uma vez, ao perguntar se um pão de batata tinha recheio de queijo, ouvi um inesperado não. Aí questionei: do que é o recheio? "De catupiry", respondeu a atendente. Oras, e o que é o catupiry?
Pior são as pessoas que me vêem como um ser estranho. Aí, já tenho o discurso pronto. "Eu não sou estranho, você que é um mutante." E faz sentido! Porque, originalmente, o homem foi "criado" para consumir leite até os 4 ou 5 anos de idade. Mas, em algum momento, milênios atrás, uma mutação genética fez algumas pessoas desenvolverem a capacidade de ingerir lacticínios por toda a vida. Ou seja, se eu não tenho tal mutação, não sou um mutante!
Enfim, mutações à parte, a vida sem leite não é de todo ruim. Posso até consumir alguns derivados. E quando quero tomar um sorvete, ou algo maior, recorro a um comprimido de lactase -- enzima que produzo em pouca quantidade e que digere o açúcar do leite, a lactose. É praticamente o viagra da digestão: você toma e pode comer o que quiser!