O chão brilhava conforme o sol entrava pela janela, no final da tarde. Madeira nova, encerada. E que em breve teria de ser escondida. No contrato de aluguel do meu apartamento, há uma cláusula de que 70% do chão deve ser coberto por tapete.
Essa obrigação serve para exemplificar como os americanos gostam de um tapete ou, principalmente, de carpetes. Talvez por causa do rigoroso inverno, ou simplesmente por uma questão de gosto duvidoso. Digo isso porque a tapeçaria aparece nos lugares mais improváveis.
Um deles é a academia. No vestiário. Junto com os armários, próximo aos chuveiros. Imagine acabar de tomar banho, sair pingando e se deparar com um carpete! Vamos combinar que não é a melhor opção de piso, basta ver a umidade que fica nele no final do dia.
Outro local ainda mais inusitado em que encontramos esta mania americana é no metrô. Não no de Nova York, mas no de Washington D.C. Já disse em um texto anterior como as linhas subterrâneas lá são sombrias, à meia-luz, algo sinistro mesmo. E que fica mais estranho ao pisarmos no tal carpete dentro do vagão. Dentro do vagão! Como diz uma amiga minha, o que será daquilo em um dia de chuva, ou pior, de neve. Pelo menos na academia os pés molhados estão limpos…
Para encerrar, só mais um exemplo: os corredores do meu prédio. Da entrada até a porta de casa, lá está ele, o carpete azulado, que parece ter a mesma idade do edifício - mais de cem anos. Isso não é o problema. O pior é a "surpresa" que me aguarda toda vez que vou sair para a rua. Quem se lembra daquelas experiências da escola, com uma tal de estática? Pois é… Basta colocar a mão na maçaneta que lá vem o choque de poucos volts, mas que sempre me faz xingar quem lançou esta moda americana.
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segunda-feira, 4 de junho de 2012
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Do desespero à alegria em poucas estações
Desesperada, a mulher passava o cartão pelo leitor, e a catraca continuava imóvel. Nova tentativa, e nada. O metrô já estava quase fechando as portas, e ela gritava para alguém esperá-la. Finalmente, conseguiu passar, e correu para dentro do vagão. Sentou-se na minha frente. Não havia ninguém a sua espera.
A senhora devia ter cerca de 50 anos. Cabelos loiros, compridos. Usava um casaco pesado de inverno por cima de uma saia e uma camisa. No colo, uma bolsa, bem grande. Ela abriu a bolsa, tirou um iogurte, colocou-o no banco ao lado e disse para ele: "Fique aí". De lá também saíram um sanduíche, que ficou quietinho ao lado do iogurte, e uma escova de cabelo.
Agora de pé, ela se posicionou na frente do vidro, tirou o casaco, e também deu ordens para ele não sair do lugar. Jogou os cabelos para a frente, para trás… Pegou a escova e começou a pentear o cabelo. "Assim está melhor", comentou consigo mesma. Pôs novamente o casaco e sentou-se.
O sanduíche e o iogurte, obedientes, passaram para as mãos dela, e de lá para a boca. A cada mordida em um, um gole no outro. Provavelmente, pelo horário, deveria ser o café da manhã. Entre três estações da linha verde do metrô de Nova York, os dois tiveram o destino que já era esperado.
As duas embalagens vazias foram para dentro de um saco de papel. A senhora olhou para os dois lados, amassou bem o lixo e o jogou embaixo do banco. O desespero inicial, de quando a vi na catraca, agora dava lugar a uma tranquilidade e a um semblante feliz… E foi assim que ela começou a cantar.
Minha estação chegou. Desci do vagão, dei três passos e virei para trás. Observei aquela cantoria, aquela felicidade inexplicável. As portas se fecharam, o trem ganhou velocidade, sumiu nos túneis escuros. E eu comecei a imaginar se um dia conseguirei ter uma alegria despreocupada como aquela.
A senhora devia ter cerca de 50 anos. Cabelos loiros, compridos. Usava um casaco pesado de inverno por cima de uma saia e uma camisa. No colo, uma bolsa, bem grande. Ela abriu a bolsa, tirou um iogurte, colocou-o no banco ao lado e disse para ele: "Fique aí". De lá também saíram um sanduíche, que ficou quietinho ao lado do iogurte, e uma escova de cabelo.
Agora de pé, ela se posicionou na frente do vidro, tirou o casaco, e também deu ordens para ele não sair do lugar. Jogou os cabelos para a frente, para trás… Pegou a escova e começou a pentear o cabelo. "Assim está melhor", comentou consigo mesma. Pôs novamente o casaco e sentou-se.
O sanduíche e o iogurte, obedientes, passaram para as mãos dela, e de lá para a boca. A cada mordida em um, um gole no outro. Provavelmente, pelo horário, deveria ser o café da manhã. Entre três estações da linha verde do metrô de Nova York, os dois tiveram o destino que já era esperado.
As duas embalagens vazias foram para dentro de um saco de papel. A senhora olhou para os dois lados, amassou bem o lixo e o jogou embaixo do banco. O desespero inicial, de quando a vi na catraca, agora dava lugar a uma tranquilidade e a um semblante feliz… E foi assim que ela começou a cantar.
Minha estação chegou. Desci do vagão, dei três passos e virei para trás. Observei aquela cantoria, aquela felicidade inexplicável. As portas se fecharam, o trem ganhou velocidade, sumiu nos túneis escuros. E eu comecei a imaginar se um dia conseguirei ter uma alegria despreocupada como aquela.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Inversão de papéis
Sou uma pessoa observadora. Agora, no outono, às vezes passo horas olhando pela janela, admirando a árvore no fundo do meu apartamento perder as folhas, conforme o vento sopra entre os seus galhos. É como se cada uma que caísse tivesse uma história diferente, e fico imaginando qual será o destino dela.
O mesmo acontece quando ando pela cidade. Olhar a feição no rosto dos desconhecidos e tentar descobrir algo da vida deles é um passatempo interessante. Nem preciso saber se estou certo ou errado, apenas invento histórias e brinco com elas na minha mente.
Outro dia fiz exatamente isso no metrô aqui em Nova York. Havia acabado de gravar a manifestação em Wall Street, e voltava para casa. Peguei a linha 4, expressa, que vai de downtown ao Upper East Side em uns vinte minutos. Vagão ainda vazio, me sentei. Logo em seguida, entrou um casal de idosos. Me levantei, e deixei a senhora se sentar no meu lugar.
Mais uma estação, e o marido dela se sentou ao lado. Olhei para os dois e comecei a pensar qual era o passado deles, há quanto tempo estavam juntos, se haviam morado sempre na cidade. E reparei que o senhor estava me observando. Eu desviava o olhar, voltava e lá estava ele, fazendo a mesma coisa. Me olhava com o canto de olho, disfarçava, pra depois voltar a me encarar.
Em alguns minutos cheguei à minha estação - que era a deles também. Os dois se levantaram, e a senhora me agradeceu novamente por tê-la deixado se sentar. Eis que o marido virou para mim e falou: "Sabe o que eu gosto de fazer quando ando de metrô? Observar as pessoas e imaginar a história delas." De cara, me disse: "Você é um jornalista de TV. Eu sei porque da cintura pra baixo está de calça jeans, e em cima, com blazer, camisa e gravata. Esta mala que está levando tem o seu equipamento de trabalho."
Fiquei tão impressionado que nem cheguei a comentar que eu fazia a mesma coisa. Só confirmei que ele estava certo, e, admirado, dei os parabéns. Rapidamente os dois se perderam na multidão. Meus olhos voltaram a procurar outras histórias. Mas minha mente continuou fixa naquela.
O mesmo acontece quando ando pela cidade. Olhar a feição no rosto dos desconhecidos e tentar descobrir algo da vida deles é um passatempo interessante. Nem preciso saber se estou certo ou errado, apenas invento histórias e brinco com elas na minha mente.
Outro dia fiz exatamente isso no metrô aqui em Nova York. Havia acabado de gravar a manifestação em Wall Street, e voltava para casa. Peguei a linha 4, expressa, que vai de downtown ao Upper East Side em uns vinte minutos. Vagão ainda vazio, me sentei. Logo em seguida, entrou um casal de idosos. Me levantei, e deixei a senhora se sentar no meu lugar.
Mais uma estação, e o marido dela se sentou ao lado. Olhei para os dois e comecei a pensar qual era o passado deles, há quanto tempo estavam juntos, se haviam morado sempre na cidade. E reparei que o senhor estava me observando. Eu desviava o olhar, voltava e lá estava ele, fazendo a mesma coisa. Me olhava com o canto de olho, disfarçava, pra depois voltar a me encarar.
Em alguns minutos cheguei à minha estação - que era a deles também. Os dois se levantaram, e a senhora me agradeceu novamente por tê-la deixado se sentar. Eis que o marido virou para mim e falou: "Sabe o que eu gosto de fazer quando ando de metrô? Observar as pessoas e imaginar a história delas." De cara, me disse: "Você é um jornalista de TV. Eu sei porque da cintura pra baixo está de calça jeans, e em cima, com blazer, camisa e gravata. Esta mala que está levando tem o seu equipamento de trabalho."
Fiquei tão impressionado que nem cheguei a comentar que eu fazia a mesma coisa. Só confirmei que ele estava certo, e, admirado, dei os parabéns. Rapidamente os dois se perderam na multidão. Meus olhos voltaram a procurar outras histórias. Mas minha mente continuou fixa naquela.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Bilhete único mundo afora
Hoje zerei meu bilhete único. Fui almoçar no Mercado Municipal de São Paulo com uns amigos. Eles, de carro. Eu, de metrô. E zerei meu bilhete único.
Tenho de admitir: gosto de transporte público, principalmente do metrô. Lembro quando era criança, e foi feita a extensão da linha 3 (na época apenas linha Vermelha) até Itaquera (na época já Corinthians, apesar de não ter sinais de um estádio por lá). Fiz um "passeio" com meu pai até a última estação, apenas para conhecê-la, um programa que encantava os meus olhos.
E este programa me acompanha desde então, com algumas adaptações. Agora, quando viajo para uma cidade que tem metrô, faço de tudo para andar nele. Cada um tem sua particularidade, sua marca registrada.
Em Madri (foto), algumas estações são tão próximas que é possível, da plataforma de uma, ver a seguinte. E, dentro do vagão, uma voz anuncia: "Atencion, estacion en curva. Al salir, tiene cuidado para no introducir el pié entre coche y andén." Sim, eles se preocupam com os nossos pés!
No Porto, em Portugal, não há catracas. É preciso validar o bilhete em uma máquina antes de entrar, na base da confiança mesmo, algo que nunca daria certo por aqui. Até há ávisos de fiscalização nos vagões. No que eu estava, entraram dois fiscais, mas nada de me pedirem o bilhete.
Mesmo quem nunca esteve no metrô de Roma dificilmente vai se sentir desorientado. Não porque as duas linhas sejam pequenas. Mas os avisos deixam seguro até o mais atrapalhado dos turistas (adianto que não é o meu caso!). Dentro dos vagões, naquele mapa de estações em cima da porta, uma linha vermelha mostra de que lado o passageiro deve desembarcar. Não é preciso esperar uma voz do além nos alertar.
Na capital dos EUA, a curiosidade está no preço da passagem. Em Washington D.C. cobra-se por distância percorrida. Ao comprar o bilhete, é preciso fazer um cálculo do trajeto, para pagar o valor exato - ou um pouco mais, com direito a ficar com o restante de crédito. Na estação em que for descer, antes de sair do metrô, basta passar novamente o bilhete, para aí sim ser debitado o valor.
Agora, no quesito surrealismo, ganha disparado o metrô de Buenos Aires. Trata-se de um dos mais antigos do mundo, de 1913. E basta uma volta nele para ver que a antiguidade continua presente. A impressão que eu tive ao andar na linha A é de que tinha voltado aos tempos do bonde. Todo o vagão é de madeira. A iluminação, precária, vem de lustres no teto, como o daqueles casarões paulistanos do início do século passado. As portas são abertas pelos próprios passageiros, ou seja, antes mesmo de o trem parar, já há pessoas subindo e descendo. A única vantagem é o preço: cerca de cinquenta centavos de real. Nem preciso dizer que zerei meu "bilhete único" muitas vezes em Buenos Aires...
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