segunda-feira, 3 de junho de 2013

Com que roupa eu vou - episódio de hoje: a praia

Long Beach, em Nova York
Praia cheia, sol forte e aquela vontade de mandar o bronzeado-escritório para longe. Tirei a camiseta, guardei a bermuda e rapidamente passei  a ser alvo de olhares. Muitos deles! Não era por causa do meu físico - que já combinou comigo que só  irá ficar em forma  para o verão 2014, e olhe lá! A culpada era a sunga.

A cena acima aconteceu no ano passado. E confesso que demorei algum tempo para acreditar que uma peça de roupa de banho pudesse ter causado tanto alvoroço. Só tive a confirmação quando duas amigas que moram há alguns anos em Nova York disseram que americano não usa sunga.

Agora, com a chegada do calor, pude confirmar: não há sunga nas lojas. Há muitos shorts, bermudões, uns calções que parecem ter saído dos catálogos de moda dos anos 50, mas nada de sunga. Tanto é que tive de pedir para minha irmã mandar uma para mim, do Brasil, de aniversário.

E neste final de semana, lá fui eu à praia estrear a minha roupa de banho nova, mesmo após minhas amigas dizerem que fatalmente os americanos iriam pensar que eu sou gay - de acordo com as duas, apenas eles usam sunga.

Cheguei à praia, tirei a bermuda, e a cena se repetiu: fui alvo de diversos olhares. Pois é, nada de encararem o homem de calça jeans e camiseta estirado na areia, o outro de bermuda de sarja, cinto e camisa de manga longa ou a mulher de maiô com bolinhas e um baita coração estampado no meio da barriga. O alvo eram os brasileiros de sunga.

Não tenho problemas com o que os outros deixam ou não de pensar sobre mim. Mas, por via das dúvidas, sempre estava acompanhado de uma das amigas pela areia... A exceção foi quando meu amigo pediu para eu tirar fotos dele para mandar à futura namorada no Brasil. Praticamente um book, uma versão masculina da garota do Fantástico!

Imagine a cena: ele, de sunga, na beira do mar, fazendo um coração com as mãos, enquanto eu, também de sunga, cuidava dos cliques com a máquina. Me agachava, dobrava as pernas, mexia os braços, na tentativa de  pegar o melhor ângulo. E ele lá, com as mais diversas caras e bocas. Bem, nessa hora, ignorei qualquer olhar... e também nem quis saber o que se passou na cabeça dos americanos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sobre antibióticos e testes de inglês

A pizza daquela noite ficou conversando comigo durante toda a madrugada. E no dia seguinte, ainda estava lá, espalhada pelo meu sistema digestivo. Dores fortes, entre outros sintomas, me obrigaram a acionar o seguro internacional pela primeira vez. Liguei, e do outro lado, a atendente perguntou:

"Você poderia descrever o que está sentindo?"

Eu, em posição fetal, de tanta dor, deitado na cama, tive de descrever, em inglês, exatamente o que acontecia - tarefa fácil! E ela ainda questionava os mais diversos detalhes. Foram uns quinze minutos de conversa, antes de receber o endereço do ambulatório. Melhor do que qualquer teste para conseguir um certificado de proficiência da Universidade de Cambridge...

Enquanto me trocava, outra preocupação - sou alérgico a um antibiótico. E como tudo indicava que eu estava com infecção alimentar, o médico fatalmente me prescreveria um. E aí, qual o nome de tal medicamento?

Antes de me mudar para cá, minha prima-médica escreveu em um receituário o nome do princípio ativo. O problema é que eu não lembrava onde estava o papel. E não é muito fácil fazer buscas pela casa estando em posição fetal - por mais que eu more em um micro-estúdio.

Armário aberto; roupas, documentos e papéis no chão; estômago e intestino doendo; tempo passando, e nada de encontrá-lo. Eis que me lembro do contexto em que ele foi escrito. 06/09/2011, 24 horas antes da mudança, minhas duas primas foram em casa se despedir de mim. Pedi à doutora uma receita com os remédios que ia levar, para não ter problemas na alfândega. E ela me sugeriu fazer uma outra com o tal antibiótico.

No papel, o nome do medicamento tinha letras garrafais. Peguei a folha na mão, e brincamos - "se eu passar mal, sem conseguir falar, tiro o papel do bolso e mostro pra alguém". Aí uma delas comentou - "e se pensarem que é pra te dar este remédio, em vez de não te dar?" Caímos na risada, com elas imaginando o primo tendo uma terrível reação alérgica - humor negro total!

Voltando ao meu apartamento, lá estava eu no chão, em posição fetal, com dor, agora rindo da história do remédio - ou seja, contraindo ainda mais a barriga e piorando a cólica. Mas pelo menos lembrei: "Sulfa! No sulfa! For God sake, no sulfa!"

O nome agora está gravado na memória, e foi útil nas outras duas vezes em que fui ao médico aqui. Assim como a maneira de descrever o que sinto, em inglês fluente. E fica a dica para os professores de idioma no Brasil: da próxima vez que algum aluno tentar faltar na prova, dizendo que está doente, não deixe. Aplique o teste nas piores condições, um dia ele irá agradecê-lo!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Aquela piscadinha

A brincadeira é simples. Primeiro, é feito um sorteio, com papéis, para ver quem vai ser o detetive, o assasino e as vítimas. Aí, sentados em círculo, o objetivo do assassino é matar as vítimas sem ser descoberto. A "arma" dele: piscar o olho.

Sempre brincava disso quando criança, e sempre ficava tenso na hora do sorteio. Não queria ser o assassino, de jeito nenhum! Não por motivos nobres ou humanitários, mas por outro - não consigo piscar com um olho só.

Parece ridículo, mas é a mais pura verdade. E, depois de anos, o assunto voltou à tona na última semana, em um bar, aqui em Nova York. Contava para uma amiga sobre a cirurgia de miopia que fiz, em apenas um olho. Ou seja, ainda sou míope no lado esquerdo. Aí, ela, que também é míope, disse que se fosse operar uma vista só, teria de ser a direita, já que só consegue piscar do outro lado. Foi quando confessei que não pisco de lado algum!

Uma outra amiga, aniversariante do dia, que ouvia a história, se juntou à conversa, e as duas questionaram como eu fazia para paquerar, já que meus músculos ao redor dos olhos, obviamente, não funcionam como deveriam. Silêncio constrangedor... Minha humilhação ficou ainda maior quando um amigo - que, segundo as duas, "transpira testosterona" - se aproximou e demonstrou a facilidade que tem em piscar um olho de cada vez, quantas vezes quisesse.

E não parou por aí! Para acabar totalmente com a minha auto-estima, a amiga míope soltou a seguinte pérola: "Ele não deve piscar por causa de tanto botox que tem no rosto, esse povo da TV usa botox em tudo, paralisa os músculos."

Não, antes que você me pergunte, eu não uso nem nunca usei botox. E, a partir de hoje, não irei dizer que não sei piscar. Falarei apenas que não o faço por motivos nobres e humanitários - e explicarei a brincadeira do detetive. Afinal, se a piscadinha pode ser usada como uma arma letal em um jogo infantil, melhor não estimulá-la!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Dez pérolas da minha viagem à África do Sul

"Você não pode filmar aqui. Se você descer com sua câmera, pode ser morto." - do motorista, depois de me levar a um bairro movimentado de Joanesburgo. Detalhe: eu havia pedido para ir a um loca seguro.

"Vou chamar o segurança para te acompanhar"- do recepcionista do hotel em Durban, quando disse a ele, à meia-noite, que iria ao restaurante da esquina. Isso porque havia um posto de polícia em frente ao hotel! E, realmente, o segurança me acompanhou.

"Nós não trabalhamos com recibos." - da dona de uma lanchonete, quando pedi a ela o documento fiscal. No final, não é que eles trabalhavam com recibos?

"Pode passar pela lateral." - da segurança do Brics, quando disse que talvez minha mala de equipamentos não coubesse na máquina de raio-x.

"Você vai para o setor de embarque ou desembarque?" - do taxista, que me levou com todas as minhas bagagens do hotel para o aeroporto.

"Nós conseguimos sediar uma Copa, mas não organizamos direito uma cúpula do Brics." - de um professor da Univeridade de Joanesburgo, sobre a bagunça que foi o encontro dos cinco países.

"São mil rands (ou 220 reais)" - da recepcionista da 'Casa do Mandela', que queria que eu pagasse tal quantia para fazer imagens do minúsculo museu.

"Quanto eu vou ganhar?" - de vários sul-africanos, quando eu perguntava se podia fazer uma entrevista.

"Você precisa de qual papel?" "Dos dois." "Dos dois quais?" "Dos dois que você tem aí." "De onde você é?" "Do Brasil." "Então você precisa dos dois papéis." "Mas foi exatamente o que eu disse." - conversa com o comissário de bordo, no voo de volta, quando ele foi me entregar o papel da imigração americana.

E a melhor... "Você é argentino?" - de um sul-africano, assim que cheguei ao país.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Sobre voos, vinhos e remédios

Uma taça de vinho. Outra taça de vinho. Uma dose de whiskey. Duas de amarula. Mais uma de whiskey. Não, não se trata de uma balada na noite de Nova York, mas sim do voo São Paulo - Joanesburgo, para a cobertura da Copa de 2010. Eu e meu amigo tomamos tudo isso, na expectativa de diminuir a ansiedade e - mais importante - fechar um pouco os olhos durante as doze horas de voo. Tudo em vão!

Sempre que viajo a trabalho, me preocupo com as horas de sono no percurso. O motivo é simples: tão logo chego ao destino, tenho de começar a trabalhar. Como ocorreu no Equador, quando fiz um link para o jornal do próprio aeroporto. Foi o tempo de abrir a mala no saguão, vestir uma camisa e um blazer, passar um pó no rosto para esconder a barba que já dava sinais de ter crescido e, é claro, apurar o que estava acontecendo.

Nesta ânsia de descansar no ar, já tentei umas receitas que  minha prima-médica obviamente não iria aprovar. Tomar remédio para enjoo mesmo sem estar com o estômago embrulhado; antialérgico, até quando meu nariz está funcionando maravilhosamente bem; relaxante muscular, inclusive sem ter dor em nenhum músculo... Claro que nunca misturei tais medicamentos! Não sou tão louco... eu acho.

Agora mesmo, escrevo este texto durante o voo  para a África do Sul, para cobrir a cúpula do Brics. Entrei no avião às 11h. Ficarei aqui ao todo por 16h! Minha opção hoje foi o vinho. Logo cedo, mesmo - o que surpreendeu a passageira ao meu lado. "Um alcoólatra", deve ter pensado. Pricipalmente depois que - desastrado como sou - derrubei metade do copo em cima dela!

Mas, confesso que parei neste primeiro meio-copo. Agora já se passaram 7h30 de voo, me mantenho acordado e - o mais importante - sóbrio. E também sem enjoo, alergia ou dores pelo corpo.  Afinal, na minha mala despachada, ainda tenho bastante pó para cobrir as olheiras. E o café de Durban dará conta de mandar o sono embora. Espero!

quarta-feira, 20 de março de 2013

50 Tons de Rosa

A festa surpresa, planejada na  última hora, já seria suficiente para fazer a felicidade de nosso amigo. Mas, se é possível deixar o ambiente ainda mais, digamos, alegre, por que não? Daí veio a ideia, de um dos organizadores, de fazer uma festa temática: ROSA. "Essa é a cor do momento pra ele", disse, sem a necessidade de mais explicações.

Convidados de rosa, guardanapos e copos rosas. Isso para comemorar o aniversário de uma pessoa que, segundo uma amiga, "transpira testosterona". É mais ou menos o que os biólogos chamam de "macho alfa". Irei omitir os detalhes - pelo menos agora - porque o assunto é extenso.

Voltando à festa… Tudo como planejado, ele abriu a porta, todos gritaram surpresa, ele ficou emocionado - de uma maneira "macho alfa" de se emocionar - e não percebeu a temática! Talvez porque nem todos estavam "coloridos". Foi preciso falar que a festa era pink - o que já fez tudo ficar um pouco mais sem graça.

Mas, a principal surpresa viria na sequência: os presentes. Ao abri-los, um por um, lá estavam camisa, camiseta, meia, cueca, livro, tudo rosa. Praticamente um guarda-roupa novo, de deixar com inveja qualquer mulher que esteja grávida de uma menina.

Meu amigo jura que levou a brincadeira na esportiva, ficará com todos os presentes, e irá usá-los. Não acho que esteja mentindo. Só acredito que, certamente, vai fazer questão de buscar no dicionário sinônimos para a cor do momento. Diferentes maneiras de descrever os 50 tons de rosa - salmão, vermelho desbotado, e o que mais a imaginação alfa permitir.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sobre o mal-estar de cada dia

Três e meia da manhã de uma sexta-feira, em Williamsburg, no Brooklyn. Saída da balada, lua brilhando num céu encoberto por nuvens, com uma fina garoa. Romantismo puro! Minha amiga se agachou na saída do bar, em silêncio, como se fosse apreciar o clima... só que colocou para fora toda a comida tailandesa do jantar.

"Vão pensar que eu bebi todas", disse. Realmente, àquela hora, naquele local, não haveria outra possibilidade. A mim, só restava perguntar se ela estava bem e oferecer um lenço de papel. Além de relembrar outras histórias parecidas.

A próxima cena ocorreu em uma reportagem que fiz quando ainda era foca. Ônibus lotado de estudantes de dez anos, indo para o cinema pela primeira vez. Janelas fechadas, ambiente abafado, e em quinze minutos já havia uma criança vomitando. Na sequência, outra avisa à professora que mais dois colegas estão em vias de repetir o gesto, quase num efeito dominó.

E é sempre assim que ocorre. Basta um começar e logo os outros se sentem mal. Por isso, a melhor opção é sempre se isolar, para não haver "contaminação". Foi o que fiz no mês passado, quando fui a vítima do mal-estar, em Caracas.

Havia jantado com uns amigos na noite anterior da posse presidencial. Nas últimas garfadas, notei que havia algo errado. E às quatro da manhã, meu estômago confirmou o pressentimento.  Lá fui eu conversar com o vaso sanitário. Tive tempo de observar as sujeiras que ficam fora do alcance da camareira e de pensar em alternativas para a minha cobertura para dali a algumas horas. Afinal, nada pode ser considerado tempo perdido!

E para encerrar o texto, antes que você, leitor, entre neste "efeito dominó", uma história ocorrida há algumas semanas, de uma outra amiga que também passou mal no final da balada - mas, esta sim, porque havia bebido todas.

Entre uma cantoria e outra no karaokê, ela se isolou no banheiro para "limpar" o estômago. E meu amigo, que estava de olho nela, ao saber do que ocorria, logo desistiu de tomar qualquer iniciativa. Afinal, há coisas que nem o romantismo da lua e nem um halls extra-forte resolvem...