segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Cadê a timidez que estava aqui?

Bloco e caneta nas mãos. As perguntas na cabeça. Só faltava uma coisa: a coragem para parar as pessoas e entrevistá-las. Assim,  fiquei uns quinze minutos olhando o vai-e-vem na rua, em uma das primeiras reportagens que precisei fazer para as aulas de jornalismo na faculdade. Resultado: nada de respostas, nada de texto.

Lembrei-me desta história por causa da capa da revista Time, sobre timidez. Não tinha como não me identificar com o texto escrito por um repórter americano, também tímido, que admite sua introspecção logo nos primeiros parágrafos. Tanto que coloquei a imagem da revista na timeline do meu facebook. E uma amiga dos tempos de colégio escreveu: "Parece um menino com quem estudei no São Luis".

Aquele menino,  na época com uniforme, ia estudar na casa de uma outra amiga, e ficava roxo toda vez que a mãe dela entrava no quarto. Até hoje, quando a gente se encontra, essa lembrança é motivo para boas risadas.

Quem estudou comigo no colégio, hoje me vê trabalhando em televisão, na frente das câmeras, e sempre me pergunta, impressionado: "Onde foi parar aquela timidez toda?". E eu respondo: "Continua no mesmo lugar".

Como diz a reportagem da revista Time, a sociedade atual pede que as pessoas sejam extrovertidas. Talvez por isso tenha conseguido me adaptar. Digamos que eu finjo muito bem! E, é claro, ter escolhido o jornalismo como profissão também contribuiu. Para um introvertido, trabalhar com comunicação é um enorme desafio diário.

O menino dos tempos do colégio apenas mudou de uniforme: hoje veste terno e gravata, e anda com uma câmera e um microfone nas mãos. Só que o rosto… esse ainda muda de cor com a maior facilidade.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Histórias de São Paulo

Anos 1930. São Paulo tenta manter um certo ar europeu. No centro da cidade, podemos ver a elegância dos homens, de terno e chapéu, em qualquer estação do ano, sob qualquer temperatura. A metrópole cresce com suas linhas irregulares, por onde os bondes passam, lotados de gente. É neste cenário que dois jovens se conhecem. Ele, um paulista filho de italianos. Ela, uma baiana. Os olhares se encontraram na rua Direita. É lá que a história do casal passa a fazer parte da história da metrópole.

Anos 1960. São Paulo já está com outra cara. A cidade tem pressa. Nas linhas irregulares, os bondes agora disputam lugar com os carros. A garoa que cai por ali encontra cada vez mais asfalto pela frente. De volta ao centro, temos outros dois jovens. Ela, baiana, filha do casal ali de cima. Ele, também baiano, passou pelo Rio de Janeiro antes de chegar aqui. Os olhares se encontram no elevador de um prédio comercial, e começam a escrever mais uma história dentro desta metrópole.

Anos 1980. São Paulo continua ligeira. A garoa permanece no apelido, apesar de a água que cai por ali insistir em ser cada vez mais pesada. A irregularidade das linhas fica por conta do metrô, que tem a estação principal no centro. Neste cenário, encontramos um garoto, filho do casal ali de cima. Os olhos dele passeiam deslumbrados pela região. São tantas pessoas, tantos prédios, tanta vida pulsando a cada instante! O olhar é apaixonado. Uma paixão inexplicável, por uma metrópole que sempre se reconstrói.

Ano 2012. O  garoto ali de cima cresceu. Seu olhar já visitou outras cidades, se deslumbrou com diversos cenários. Hoje, ele mora em uma metrópole diferente. Mas sabe que isso não significa uma traição. Ao se lembrar de São Paulo, os batimentos de seu coração ganham uma certa irregularidade, tais como as linhas da capital paulista. Mesmo longe, seus olhos buscam, por onde passam, lembranças da cidade pela qual um dia se apaixonaram. Porque ele sabe que é lá que está sua história.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Sobre Luiza, supostos estupros e sabão em pó...

Cena 1

Abro o facebook, e, entre milhares de mensagens de auto-ajuda, correntes e coisas do gênero, vejo a seguinte colagem: embalagens de margarina, embalagem de sabão em pó, um dedo apontando pra minha cara, uma garrafa de bebida alcoólica, entre outras imagens. Não entendo nada.
No dia seguinte, a colagem se prolifera no perfil de vários amigos. Continuo sem entender nada, e, pior, com vergonha de perguntar a alguém o que aquilo significa.
Mais um dia, e, além da colagem, também temos um vídeo com um certo cantor e uma certa música, em vários idiomas. Música essa que, óbvio, fica grudada na minha cabeça...

Cena 2

20h37, chego em casa, carregando três sacolas de compras do supermercado. Tiro o celular do bolso, e vejo a luz vermelha acesa, sinal de nova mensagem no whatsapp.
"Tá acompanhando as notícias do Brasil? Só bomba agora de noite."
Largo leite, ovos, carne, tudo no chão. Rapidinho, ligo o computador, e entro em três sites de notícias. Invasão de morro? Deslizamentos? Impeachment? Procuro, procuro, procuro, e nada de anormal. Respondo, no celular.
"O que houve? Acabei de chegar em casa."
Aí sou informado de que a polícia havia entrado em uma certa casa de um certo programa de tv por causa de um certo participante envolvido em um suposto estupro…

Cena 3

Leio no twitter um amigo falar que a Luiza está no Canadá. "Que bacana", penso, apesar de não saber de quem se trata.
Leio no facebook um amigo comentar que todos têm obrigação de ir ao aniversário dele, menos a Luiza, que está no Canadá. "Eu também não, afinal, estou nos EUA", penso, apesar de continuar sem saber quem é a Luiza.
Leio em um portal de notícias a repercussão no Brasil inteiro sobre o fato de Luiza estar no Canadá. "Eu PRECISO saber quem é a Luiza!". Com as mãos tremendo, os olhos procurando em todos os cantos da tela, quase em surto, acho um vídeo, com um certo comercial de um certo estado, mostrando uma certa família sem uma certa filha, que estava no Canadá…

Nessas horas, os quatro meses que eu estou longe do Brasil parecem se transformar em quatro anos, quatro décadas, quatro séculos… Já não sei mais o que se passa por lá… E sinceramente: nem sei se vale a pena saber!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Desde o primeiro rabisco...

Estava procurando músicas no youtube, quando apareceu a sugestão para eu ver o clip "O Caderno", do Toquinho. Cliquei, para recordar os tempos de colégio. E comecei a pensar na importância do papel na minha vida.

Todo mês de janeiro, vivia a expectativa para a volta às aulas. Escolhia com carinho os cadernos que iriam me acompanhar naquele ano letivo. Olhava para eles, ao lado da mochila, me implorando para serem preenchidos ao longo dos meses - tarefa que eu sempre cumpria com orgulho.

Hoje, os meu blocos são companheiros inseparáveis. Neles, faço as anotações das entrevistas, esboço minhas matérias. E, como dizem meus amigos cinegrafistas, "psicografo" os meus textos. Isso porque tenho o hábito de baixar a cabeça, ficar uns minutos em silêncio e escrever a reportagem com uma letra que só eu consigo decifrar.

São também nas folhas soltas de papéis, guardadas em São Paulo, que estão os desenhos que meus sobrinhos fizeram para mim. Alguns são rabiscos incompreensíveis para os outros. Mas há também lindas pinturas, como a que ganhei da minha sobrinha, quando voltei da cobertura da copa em 2010. Um mapa mundi, com o Brasil e a África do Sul separados por um longo oceano, e no meio dele, eu, voltando para casa.

Também foi o papel que me fez ficar emocionado  neste fim de ano. Ao receber o cartão postal enviado por uma amiga... Ao ler os cartões de Natal dos meus pais, tios e primos... Ao reconhecer cada uma daquelas letras ali na minha frente, ver as palavras de carinho, e imaginar a cena de cada pessoa colocando as frases certas no local certo...

E não importa se a lágrima cair no papel. Ela deixa nele a lembrança daquela emoção. Dá força ao que está ali escrito ou desenhado. E traz a certeza de que aquele pedacinho de história não ficará esquecido em um canto qualquer.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Lá no céu, os anos se encontram

Quando eu era criança, a noite de reveillon ficava restrita ao meu imaginário. Eu dormia muito cedo, no máximo às oito da noite. Então, até pelo menos os seis anos de idade, não havia presenciado uma virada de ano.

Por isso, o imaginário daquela criança era construído pelo relato do meu irmão, quatro anos mais velho do que eu. Ele me dizia que, à meia-noite do dia 31, se eu olhasse para o céu, viria o Ano que se encerrava, velhinho, dar as boas-vindas para o recém-nascido Ano Novo.

Agora, imagino como seria olhar para o céu, neste sábado, e ver o meu 2011 à meia-noite. Certamente, cheio de marcas de expressão no rosto, de quem viveu uma vida bem vivida. Com rugas das risadas dadas muitas vezes sem motivo.

As mãos estariam com calos de quem escreveu inúmeras histórias, tantas que os dedos até se perdem na hora de contá-las. As pernas, apesar de cansadas, ainda teriam pique para rodar muito mais este mundo atrás de novidades. E os olhos… bem, estes continuariam brilhando, como se todo dia fosse 1o de janeiro, cheio de novidades, expectativas e esperança.

Este meu 2011, mesmo exausto, ainda teria energia de sobra para viver muito mais tempo. Apesar disso, se juntaria lá no céu aos meus outros 30 e poucos anos. Todos com os cabelos grisalhos, repletos de boas lembranças. Todos torcendo para 2012 ser muito bem sucedido na sua caminhada.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Perdidos na cidade

A pequena tartaruga, no seu antigo "lar"
As perninhas pequenas nem se procupavam em acelerar o passo. O que elas estavam fazendo era tão improvável que ninguém se atreveria a procurá-las tão cedo. E assim, aquela minúscula tartaruga fugia, tranquilamente, do Inwood Hill Park, quase invisível em plena ilha de Manhattan.

Não sei bem se foi desta maneira que aconteceu, mas é como imagino que este ser indefeso tenha escapado de seu aquário. A noticia foi destaque nos principais noticiários locais. Mobilizou diversos funcionários, todos à caça da pobre fugitiva.

Na cidade onde as pessoas mal olham para o lado, prestar atenção no que esta abaixo de nós é ainda mais complicado. Pés e pernas se multiplicam em meio às ruas numeradas, em uma equação quase infinita. O vai-e-vem incansável sufoca, enlouquece… mas também vicia. Estranhamente, vicia.

Bastaram três meses para eu sentir esta química. Meu corpo hoje procura o ritmo acelerado de Nova York. Quer pulsar tal qual o sangue que percorre os pés e as pernas de quem anda por aqui. Não se cansa, só se alimenta desta rotina. Perde-se na metrópole, e não quer ser encontrado.

O mesmo deve ter ocorrido com a pequena tartaruga. Uma vez em liberdade, fatalmente se espantou, se admirou e logo se apaixonou por Nova York. Na sua velocidade, de cerca de cem metros por hora, conseguiu vencer os obstáculos, e ganhar a cidade. É a Little Turtle na Big Apple.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Inversão de papéis

Sou uma pessoa observadora. Agora, no outono, às vezes passo horas olhando pela janela, admirando a árvore no fundo do meu apartamento perder as folhas, conforme o vento sopra entre os seus galhos. É como se cada uma que caísse tivesse uma história diferente, e fico imaginando qual será o destino dela.

O mesmo acontece quando ando pela cidade. Olhar a feição no rosto dos desconhecidos e tentar descobrir algo da vida deles é um passatempo interessante. Nem preciso saber se estou certo ou errado, apenas invento histórias e brinco com elas na minha mente.

Outro dia fiz exatamente isso no metrô aqui em Nova York. Havia acabado de gravar a manifestação em Wall Street, e voltava para casa. Peguei a linha 4, expressa, que vai de downtown ao Upper East Side em uns vinte minutos. Vagão ainda vazio, me sentei. Logo em seguida, entrou um casal de idosos. Me levantei, e deixei a senhora se sentar no meu lugar.

Mais uma estação, e o marido dela se sentou ao lado. Olhei para os dois e comecei a pensar qual era o passado deles, há quanto tempo estavam juntos, se haviam morado sempre na cidade. E reparei que o senhor estava me observando. Eu desviava o olhar, voltava e lá estava ele, fazendo a mesma coisa. Me olhava com o canto de olho, disfarçava, pra depois voltar a me encarar.

Em alguns minutos cheguei à minha estação - que era a deles também. Os dois se levantaram, e a senhora me agradeceu novamente por tê-la deixado se sentar. Eis que o marido virou para mim e falou: "Sabe o que eu gosto de fazer quando ando de metrô? Observar as pessoas e imaginar a história delas." De cara, me disse: "Você é um jornalista de TV. Eu sei porque da cintura pra baixo está de calça jeans, e em cima, com blazer, camisa e gravata. Esta mala que está levando tem o seu equipamento de trabalho."

Fiquei tão impressionado que nem cheguei a comentar que eu fazia a mesma coisa. Só confirmei que ele estava certo, e, admirado, dei os parabéns. Rapidamente os dois se perderam na multidão. Meus olhos voltaram a procurar outras histórias. Mas minha mente continuou fixa naquela.